The Feed CultTechEssays Setup Express
Cosmic Princess Kaguya: como o filme da Netflix virou fenômeno no Japão
Cult

Cosmic Princess Kaguya: como o filme da Netflix virou fenômeno no Japão

Lançado discretamente na Netflix em janeiro, Cosmic Princess Kaguya se tornou um dos maiores sucessos do ano no Japão, com bilheteria histórica, campanha de crowdfunding bilionária e uma explosão de eventos e produtos derivados.

Cosmic Princess Kaguya, filme dos estúdios Studio Colorido e Studio Chromato, é uma comédia romântica musical de ficção científica com ação que reimagina a clássica história de The Tale of the Bamboo Cutter. Lançado em janeiro no catálogo da Netflix, o longa teve uma recepção positiva e boa repercussão entre veículos anglófonos, mas acabou ofuscado pelo algoritmo da plataforma. Até o momento da publicação do texto original, o filme contava com apenas 10 avaliações no Rotten Tomatoes e poucos artigos em inglês depois de janeiro de 2026, sendo tratado apenas como mais uma boa obra de yuri anime do último ano.

No Japão, porém, o cenário foi completamente diferente: o filme se tornou aos poucos um dos grandes sucessos do ano e deu origem ao que pode ser a próxima grande franquia da mídia japonesa. Foram seis meses intensos desde a estreia, e o objetivo deste conteúdo é recapitular o que o público de fora do Japão pode ter perdido.

De lançamento modesto a sucesso inesperado

O filme faz parte do acordo de três longas firmado em 2022 entre o Studio Colorido e a Netflix, que também incluiu Drifting Home e My Oni Girl. Diferente de outros acordos do tipo, o estúdio manteve os direitos dos filmes e também os direitos de merchandising. Em contrapartida, a Netflix não participou ativamente da divulgação, o que resultou em um lançamento discreto em 22 de janeiro, com marketing modesto: alguns curtas fofos no YouTube apresentando os personagens, covers de músicas Vocaloid famosas e posts frequentes no Twitter.

O filme teve três itens de mídia derivada (uma light novel, um mangá e um guia oficial), merchandising limitado e apenas um DLC em parceria com o jogo gogh: Focus with Your Avatar. Com base nos lançamentos anteriores do Studio Colorido e nos filmes originais da Netflix, isso parecia mais do que suficiente. Quando o longa finalmente estreou, tudo mudou.

Um projeto multimídia com equipe de peso

Para o público otaku mais atento, Cosmic Princess Kaguya já era motivo de atenção. O filme marca a estreia de Yamashita Shingo na direção de um longa. Conhecido desde a era webgen pelo estilo dinâmico e extravagante, ele dirigiu as primeiras aberturas de Chainsaw Man e Jujutsu Kaisen, e liderou a minissérie Pokemon: Twilight Wings. O projeto contou com uma equipe de destaque, incluindo a dubladora Hayami Saori em um papel principal e uma trilha sonora com músicas de produtores Vocaloid famosos como Ryo (supercell), HoneyWorks e 40mP. A produção também trouxe a então crescente dubladora Nagase Anna para a protagonista Iroha, pouco antes de seus grandes papéis em séries como Milky Subway e Zenshuu.

Para os fãs, havia bastante conteúdo complementar: a light novel traz cenas exclusivas, novos personagens e mais elementos românticos; o guia oficial detalha cada personagem do elenco; e os vídeos promocionais do canal no YouTube são tratados como obras dentro do universo. A maior peça desse material veio uma semana após a estreia na Netflix: um videoclipe totalmente animado para a música Ray, um epílogo de dois minutos que amarra todos os personagens e elementos emocionais da história.

A corrida nos cinemas

Com o crescimento da popularidade na Netflix, o filme ganhou uma exibição limitada de uma semana nos cinemas. Apenas 18 salas, principalmente em grandes cidades, receberam a produção, que oferecia um livreto especial de brinde e um ingresso duplo com desconto de 700 ienes. Diante de sessões quase esgotadas, a exibição foi estendida para duas semanas, depois três, e acabou ganhando lançamento mais amplo em mais de cem cinemas a partir de 13 de março.

Semana após semana, o filme permaneceu no top 10, mesmo com a chegada dos grandes lançamentos de primavera. Cada semana, os cinemas incentivavam novas sessões com cartões-postais, adesivos e outros pequenos brindes. Durante sua temporada, Cosmic Princess Kaguya se tornou o sucesso cult do início de 2026: as músicas tocaram no rádio, revistas como CUT e Anan deram capa ao filme, sites publicaram inúmeras entrevistas, e a obra saiu da esfera otaku para ganhar destaque no mainstream.

Crowdfunding e dominância nas redes

Em meio ao sucesso surpresa nos cinemas, o filme lançou uma campanha de financiamento coletivo para Tsukuyomi Thanksgiving!, um mundo virtual no VRChat baseado na obra. A campanha bateu a meta em minutos e, ao final, arrecadou mais de 5000% do objetivo inicial. Os números oficiais de arrecadação não foram divulgados.

O ponto mais alto veio durante o Golden Week, no fim de abril. Em 29 de abril, a equipe de divulgação lançou uma campanha especial, incentivando o público a assistir ao filme simultaneamente e compartilhar posts nas redes sociais. Termos relacionados ao filme dominaram as tendências do Twitter. Em 1º de maio, o elenco apareceu no canal de performances ao vivo THE FIRST TAKE cantando Ray. O último brinde especial dos cinemas veio no fim do Golden Week: uma reimpressão do livreto original, desta vez em quantidade muito maior.

Explosão de parcerias e produtos

Com o marketing modesto do lançamento inicial e a produção internacional em meio a problemas geopolíticos, as empresas envolvidas correram para aproveitar o sucesso. O Japão viu uma avalanche de colaborações, entre elas: um stamp rally na cidade de Fuji; um pop-up na livraria Asahiya em Osaka e Tóquio; talk show e sessão de perguntas com a equipe em Tokushima; parcerias com o THE CHARACAFE STAND no Tokyo Dome, a rede de restaurantes Sweets Paradise, o karaokê e cybercafé Dice, o centro de entretenimento Round One, a marca de roupas WEGO, o mercado Maruetsu em Osaka, o cinema Cinema City em Tachikawa, um festival de fogos em Fuji e um pop-up de verão na livraria Tsutaya em Kyoto.

Um restaurante em Tachikawa, cidade onde o filme se passa, criou uma promoção não oficial inspirada na obra e precisou encerrá-la quase imediatamente por causa do número excessivo de clientes. Os itens maiores de merchandising ainda estão por vir: pelúcias, prêmios de máquinas de garra e estátuas. O Blu-ray oficial está previsto para setembro, e as pré-vendas da edição especial já esgotaram em quase todas as lojas digitais.

Eventos de doujinshi e bilheteria histórica

O fandom também se expandiu para os fancomics. Segundo as diretrizes oficiais de obras derivadas, os doujinshi da série só podem ser vendidos em eventos presenciais e, depois, em lojas especializadas. O primeiro evento exclusivo, Super Tsukuyomi Festival, aconteceu em 24 de maio, em Tachikawa, e teve filas de centenas de metros, com a maioria das pessoas não conseguindo entrar.

Uma extensa lista de eventos temáticos está programada para o verão e o outono de 2026, passando por cidades como Tóquio, Osaka, Hiroshima, Fukuoka, Kyoto, Yokohama e Nagoya, sem contar a presença em eventos maiores como Comiket e Comic City.

O resultado de todo esse entusiasmo: Cosmic Princess Kaguya arrecadou 2,71 bilhões de ienes em sua temporada original nos cinemas. Uma exibição limitada de uma semana que durou 17 semanas. Com esse valor, tornou-se o filme de anime original com maior bilheteria (considerando obras que não são adaptações diretas nem sequências) não produzido pelo Studio Ghibli nem dirigido por Shinkai Makoto ou Hosoda Mamoru. Entre os chamados “filmes otaku”, fica atrás apenas do filme de Love Live (2,86 bilhões de ienes), do filme de IDOLiSH7 (2,92 bilhões de ienes) e do filme de Gegege no Kitaro de 2023 (3,22 bilhões de ienes).

A light novel derivada também dominou o mercado: vendeu quase 180 mil cópias e caminha para ser a light novel mais vendida do ano, superando o volume 16 de The Apothecary Diaries, mais vendido de 2025.

A temporada nos cinemas terminou em 18 de junho, com “sessões de formatura” finais realizadas em Tachikawa e Kawasaki nos dias 19, com saudações presenciais da equipe. Durante esses eventos, foi anunciado que o filme será relançado em formatos premium como 4DX e Dolby Atmos em 18 de setembro.

O futuro da franquia

O que era para ser um filme isolado de streaming se tornou uma grande franquia de entretenimento. Os fãs têm sido mantidos engajados por meio de um fluxo constante de produtos, histórias e detalhes de lore, incluindo posts de aniversário aprofundando dinâmicas de personagens, entrevistas canônicas que preenchem lacunas da linha do tempo do filme e conteúdos com a personagem em contexto pós-filme.

Grande parte dessa energia, porém, ainda não chegou ao fandom anglófono, ficando restrita ao público de yuri. O filme está disponível na Netflix em todo o mundo, exceto no Japão, e nenhum dos materiais derivados recebeu tradução oficial. O texto original conclui apostando que alguma empresa de entretenimento firmará um acordo para levar a franquia ao Ocidente, já que ela deve continuar crescendo por muitos anos.

Seu Fronteira

Postar um comentário