Como a Toei quase perdeu Dragon Ball por causa de Yu-Gi-Oh!
Após cancelar o primeiro anime de Yu-Gi-Oh!, a Toei se recusou a liberar os direitos da obra, e o editor-chefe da Shueisha ameaçou revogar o uso da marca Dragon Ball para forçar um acordo.
Yu-Gi-Oh! é hoje uma das marcas japonesas mais valiosas do mercado, sustentada principalmente pelo card game e pelos animes derivados que continuam sendo produzidos. O mangá original de Kazuki Takahashi (1961–2022), publicado no Brasil anos atrás, se estendeu por 38 volumes e, pouca gente sabe, gerou dois animes distintos. O mais conhecido é o segundo, cujo nome original é Yu-Gi-Oh! Duel Monsters, animado pela TV Tokyo. O primeiro, apenas Yu-Gi-Oh!, tem 27 episódios e um filme, cobre os primeiros volumes do mangá e apresenta um tom bem mais sombrio.
Muito antes de se tornar um dos card games de maior sucesso, o mangá de Yu-Gi-Oh! gerou um primeiro anime que não deu certo. A Toei Animation, responsável pela atração, rapidamente o cancelou por baixa audiência, o que não foi bem aceito pelo então editor-chefe da Shueisha. A altercação entre as partes quase levou a uma resposta drástica, caso a companhia não liberasse os direitos da obra.
O início de Yu-Gi-Oh!, tanto no mangá quanto no primeiro anime, chega a ser chocante para quem só conheceu a obra por Duel Monsters, que focou principalmente no card game. Nos primeiros capítulos, o protagonista Yugi Mutou hospeda uma contraparte da qual não se dá conta completamente. Esse “Yami Yugi” (Yugi Sombrio) se comporta como um vigilante, que pune os maus com jogos sombrios e impõe punições severas a quem quebra as regras.
O mangá originalmente não iria se focar em um jogo de cartas. Em vez disso, Yugi podia usar seus poderes ancestrais em qualquer jogo que pensasse, de dados a RPGs de mesa, e como muitos daqueles com quem interagia eram pessoas realmente más, como psicopatas e ladrões, as consequências podiam ser bem gráficas. O episódio em que Yugi salva Téa/Anzu de um assaltante que a mantém sob a mira de um revólver, mencionado de leve em Duel Monsters, é um bom exemplo: no mangá, o bandido deixa o cigarro cair e ateia fogo em si mesmo de verdade.
Produzido em uma parceria entre a Toei Animation, que garantiu os direitos junto à Shueisha, e a TV Asahi, o anime original de Yu-Gi-Oh! foi exibido entre abril e outubro de 1998. A produção cobre desde a primeira aparição de Yami Yugi até o confronto contra Bakura no RPG de mesa, além de adaptar os primeiros embates do protagonista e seus amigos com o eterno rival Seto Kaiba, de maneira bastante fiel ao mangá.
A produção, porém, teve números fracos de audiência, o que levou a Toei a encerrar o anime e ocupar a grade com outras produções. Ainda assim, o estúdio decidiu que não abandonaria a propriedade intelectual: de forma similar ao que a EA costuma fazer, os executivos acharam melhor segurar os direitos e esperar por uma nova oportunidade.
O que a Toei não contava é que tal ação enfureceria Kazuhiko Torishima, na época o editor-chefe da Shueisha. Conhecido como o primeiro editor de Akira Toriyama (1955–2024), criador de Dragon Ball, ele era uma figura notória dentro da companhia desde os anos 1980, por sua fama de ranzinza e de preferir mangás shōjo sobre os shōnen, tanto que o pai de Goku e cia. o imortalizou como o histriônico vilão Dr. Mashirito, principal antagonista de Dr. Slump.
Em uma entrevista publicada pela Universidade Profissional de Kaishi e traduzida pelo site OtakuMantra, o produtor de animes Yoshiro Takaoka, que trabalhou em séries como Gunslinger Girl e Hunter x Hunter, contou que foi abordado por Torishima sobre o crescimento na popularidade do mangá de Yu-Gi-Oh!, que já estava em seu segundo ano. A editora não poderia permitir que a série ficasse sem uma versão animada por tempo indeterminado, o que poderia ser mortal para a marca:
“O anime vai acabar, mas as pesquisas de opinião da (Weekly Shōnen) Jump mostram que o mangá está indo muito bem. Interromper a transmissão agora é loucura. Então por favor, produzam o anime e o ponham no ar, não importa o que aconteça.”
Torishima pretendia recuperar os direitos e passá-los para a ADK, mas a Toei era adamante em não querer cedê-los, o que era o pior cenário possível naquele momento. Caso a companhia conseguisse fazer as coisas do jeito que queria, a popularidade do mangá poderia despencar e levar a seu cancelamento. Em última análise, o card game poderia jamais ter existido.
Takaoka organizou uma reunião entre Torishima e os executivos da Toei, que teria ocorrido em 1999. Na ocasião, o estúdio deixou claro não ter a menor intenção de se desfazer dos direitos de Yu-Gi-Oh!, de modo a permitir que qualquer outro assumisse a empreitada. O editor-chefe da Shueisha então soltou a bomba:
“Vocês têm certeza que é isso que vocês querem? Se é assim que vai ser, eis a minha jogada: eu vou revogar todos os direitos secundários de uso da marca Dragon Ball.”
Na época, embora Dragon Ball GT já tivesse chegado ao fim no Japão, Dragon Ball Z estava bombando nos EUA e na Europa através de localizações oficiais, e mais tarde naquele ano o Cartoon Network trouxe o anime ao Brasil. Em 2000, ele começou a ser exibido na Band e, no mesmo ano, a Conrad Editora iniciou a publicação do mangá, abrindo as portas para inúmeras outras obras que seriam localizadas depois.
Perder os direitos de Dragon Ball naquele momento seria catastrófico para o estúdio, que desde sempre assegurou as produções do anime seriado e dos filmes das aventuras de Goku e seus amigos. Torishima sabia que estava batendo onde doeria mais, no bolso, e sem outra opção, a Toei cedeu às ameaças e liberou os direitos.
Ainda em 1999, após o impasse entre Torishima/Shueisha e a Toei ter sido resolvido, a Konami lançou os primeiros sets oficiais do card game. Em abril de 2000, a TV Tokyo levou para as TVs japonesas o novo anime Yu-Gi-Oh! Duel Monsters, que cobriu todo o restante do mangá de Takahashi, do Reino dos Duelistas até o final da jornada de Yugi e cia., e o resto é história.
O anime original de Yu-Gi-Oh!, conhecido informalmente como “season 0” por aqui, nunca foi localizado fora do Japão e é um ilustre (e estranho) desconhecido para a maioria dos fãs ocidentais do Rei dos Jogos. Encontrá-lo hoje é uma tarefa restrita àqueles que navegam pelas baías tortuosas do compartilhamento alternativo, embora boa parte dos 27 episódios, se não todos, possa ser encontrada no YouTube. Dizem.
