Enem 2026: clima e inteligência artificial são apostas de professores para a redação
Professores de redação apontam mudanças climáticas nas cidades e o uso ético da inteligência artificial como possíveis temas da redação do Enem 2026, entre outras apostas que vão de leitura a apostas online.
Com a aproximação do Enem 2026, professores de redação e produção de textos têm apostado em possíveis temas para a prova. Entre as principais apostas estão a adaptação das cidades às mudanças climáticas e o uso ético e consciente da inteligência artificial no Brasil.
Cidades versus clima
As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 estão entre os acontecimentos que levam Everton Bastos, professor de Literatura e Produção de Textos do Colégio Católica Curitiba, a apontar o possível tema “Adaptação das cidades com relação às mudanças climáticas”. Segundo ele, o debate envolve planejamento urbano e a exposição desigual aos desastres.
“A banca do ENEM valoriza abordagens que discutem desigualdades socioespaciais, já que eventos climáticos extremos afetam de forma desproporcional, sobretudo, as populações periféricas e vulneráveis.”
Amanda Correia, coordenadora da Rede Alfacem Global Academy, faz a mesma aposta: “O ponto central é que os desastres não atingem todos da mesma forma: quem mais sofre é a população pobre que vive em áreas de risco.”
Bastos sugere a leitura de relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e artigos do Observatório do Clima, enquanto Correia indica o livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak, e o filme Parasita, de Bong Joon-ho.
Inteligência artificial e educação
Adenildo Lima, professor de Língua Portuguesa do ensino médio técnico do Senac Nações Unidas, aponta o tema: “Desafios para o uso ético e consciente da inteligência artificial no Brasil”. Para o docente, o assunto coloca em discussão “a tensão entre o rápido avanço da inovação tecnológica e seus impactos éticos, sociais e jurídicos”.
Correia destaca o uso das ferramentas de IA nas salas de aula. Embora possam ampliar o acesso ao conhecimento, há preocupações com a dependência tecnológica e a perda do pensamento crítico. O plágio e a desinformação também estão entre os riscos apontados pela coordenadora. “Há também uma questão de desigualdade: nem todos os alunos e escolas têm o mesmo acesso a essas tecnologias.”
Para estudar o assunto, Adenildo Lima sugere consultar a Constituição e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A coordenadora recomenda Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, e avaliar o que vem sendo debatido sobre a regulamentação da tecnologia no Brasil.
Leitura e formação crítica
O analfabetismo funcional sustenta outra aposta do professor do Senac Nações Unidas: o papel da leitura na promoção da cidadania e do pensamento crítico no Brasil. “Aborda uma problemática sensível à população brasileira, que afeta uma parcela significativa dos brasileiros e brasileiras que leem, mas nem sempre conseguem compreender, interpretar ou elaborar uma análise crítica sobre o assunto abordado.”
O docente menciona a escassez de bibliotecas e de políticas contínuas de incentivo à leitura, sobretudo em cidades pequenas, como pontos a serem explorados na redação. Cita ainda o consumo rápido e superficial de informações digitais, que pode favorecer a circulação de notícias falsas.
Entre as indicações estão A importância do ato de ler: em três artigos que se completam, de Paulo Freire, e o ensaio O direito à literatura, de Antonio Candido. O professor recomenda também consultar os dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf).
Crianças na web
Letícia Lima, professora de redação e Linguagens da edtech AMentoria, levanta o tema “Vulnerabilidade digital de crianças” e aposta na proteção infantil na internet por meio das discussões sobre o funcionamento dos algoritmos e o cyberbullying.
Ela sugere a responsabilidade das plataformas digitais, compartilhada com o Estado e as famílias, no enfrentamento desses problemas, como mote para a elaboração do texto.
Para melhorar o repertório, indica o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Marco Civil da Internet. “Não adianta citar uma lei apenas para mostrar que a conhece; o candidato precisa explicar como aquele princípio jurídico se choca com o problema apresentado na coletânea.”
Apagão de professores
A dificuldade de atrair jovens para a docência, enquanto o quadro de professores envelhece, é outra aposta de Letícia Lima. A precariedade das condições de trabalho é outro ponto que pode entrar na análise dos riscos educacionais. A professora recomenda considerar a formação e a valorização profissional, observando como os jovens enxergam a carreira, na hora de estruturar o texto.
A pesquisa Apagão dos professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, do Instituto Semesp, é uma sugestão para estudar o assunto.
Alimentação saudável na infância
Amanda Correia também aponta o tema “Os desafios para garantir uma alimentação saudável na infância brasileira” por reunir questões de saúde pública e desigualdade social. “De um lado, muitas famílias ainda enfrentam a insegurança alimentar; de outro, cresce o excesso de peso entre as crianças.”
A coordenadora relaciona esse quadro ao consumo de ultraprocessados, favorecido pelo baixo preço, pela praticidade e pela publicidade. Também menciona as restrições à compra desses produtos para a alimentação escolar. “Em 2025, o Governo Federal reduziu o limite desses produtos na merenda escolar, e a partir de 2026 eles só podem representar 10% dos itens comprados.”
Entre as indicações de Correia estão o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, e o documentário Muito Além do Peso, de Estela Renner.
Impactos das apostas online
A expansão das bets e seus efeitos sobre as famílias justificam outro palpite de Correia. A coordenadora destaca o papel da publicidade e da divulgação por influenciadores, além dos patrocínios no futebol, como pontos que podem ser explorados na redação: “Há ainda impactos na saúde mental, como o vício em jogos, e no endividamento.”
Para ter mais base sobre o assunto, ela recomenda acompanhar as discussões da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets e compreender a ludopatia, o vício em jogos. Entre as indicações de leitura está O Jogador, de Fiódor Dostoiévski.
Vício em discussão
Everton Bastos também aposta em “Caminhos para superação do alcoolismo no Brasil”. Para o professor, a discussão pode abordar a associação da bebida à diversão, a dificuldade de reconhecer os limites entre o consumo social e a dependência e o papel da publicidade na naturalização do consumo. Na avaliação de Bastos, o Enem costuma abordar problemas de saúde pública pela perspectiva da “quebra de tabus” e da “necessidade de políticas preventivas mais eficazes”. Ele ainda destaca o papel dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CapsAD) no acolhimento e no tratamento pela rede pública.
Para reunir informações sobre o assunto, recomenda cartilhas do Ministério da Saúde e reportagens sobre a influência da publicidade de bebidas sobre os jovens.
